ANÁLISE DE INTELIGÊNCIA PROPRIAMENTE DITA

Olá meus amigos do blog Inteligência e Segurança! Aqui estamos mais uma vez para dar continuidade a nossa série de artigos sobre a atividade de Inteligência. Hoje falaremos sobre a análise de inteligência propriamente dita.

A análise tem por finalidade submeter dados avaliados à interpretação para que possam ser convertidos em um conhecimento de Inteligência.

Convém lembrar que a atividade de Inteligência tem dois ramos interdependentes: Inteligência e Contrainteligência. Os dois ramos utilizam as chamadas Técnicas Operacionais, as quais serão objetos de estudo posteriormente.

O analista de Inteligência, na análise, vai identificar os fatores-chaves e as estratégias para o enfrentamento do problema que tem pela frente e que são necessários à organização para orientar o processo decisório e o planejamento em tempo hábil.

O uso adequado pelos analistas de suas habilidades possibilitará extrair o máximo possível dos dados e informações disponíveis, separando o que é de fato importante do irrelevante, procurando desvelar o significado real do que é somente aparente, enfim, produzindo conhecimento útil para a organização.

Como o papel do analista inclui a busca dos dados estratégicos utilizados pelas organizações adversárias, aumentam as medidas de Contrainteligência.

É, dessa forma, possível afirmar que cabe à Contrainteligência analisar as potencialidades e intencionalidades da Inteligência adversária, bem como levantar as vulnerabilidades da organização e propor estratégias para conter e tornar inócuos os esforços do atacante.

Com intuito de esclarecer melhor como se dá a ação do analista, vamos falar agora de forma como acontece o Ciclo da Inteligência.

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O Ciclo de Inteligência em uma organização começa com a definição das necessidades de conhecimento, seguindo-se o planejamento de como estes produtos serão gerados e o seu direcionamento.

Vamos percorrer este Ciclo a partir das necessidades de conhecimentos, cuja definição é quase sempre um problema nas organizações. Devem ser definidas pelos tomadores de decisão, pelos planejadores, gestores e operadores, de acordo com seus níveis – estratégico, tático ou operacional. Devem, ainda, ser coerentes com a visão do líder a respeito das políticas e estratégias a serem empreendidas, com o tipo de negócio, com os objetivos da organização, as metas, a missão, o aparato legal, as conjunturas, o ambiente operacional e o nível dentro da organização.

Tais necessidades são identificadas a partir de estímulos externos e internos ou levantadas por meio de entrevistas com o público interno, em questionários, pesquisas, análises retrospectivas, análises de conjunturas, estudos de situação, de casos etc.

A existência de Planejamento Estratégico Organizacional; de Planejamento Estratégico de Segurança; de Plano de Inteligência Estratégica, de Diretrizes de Inteligência; de Missão; de Objetivos de Inteligência, implicam conhecimentos necessários ao contexto e são destinadas ao reconhecimento das oportunidades, bem como demandam, naturalmente, as necessidades de produtos informacionais.

Os Objetivos e Metas colimados nos planejamentos devem orientar a visualização das necessidades de conhecimentos específicos. Delas devem decorrer os Planos de Produção de Inteligência. Dessa forma, como suporte às investigações de casos concretos de incidentes, as necessidades de informações surgem naturalmente em função das indagações dos investigadores, dos atores envolvidos, dos temas concorrentes e decorrentes, das áreas geográficas ou de conhecimento etc., que envolvam os fatos. Caso a organização tenha Inteligência estruturada, um bom percentual dessas necessidades de conhecimentos poderá estar disponível para o investigador no bancos de dados.

As necessidades de conhecimentos devem responder, no mínimo, às seguintes perguntas: O que? Com que finalidade? Para quem? Em que prazo? Com que grau de veracidade?

Como segunda fase do Ciclo, analisemos agora os processos de Coleta e Busca.

A coleta é um processo de obtenção de dados em fontes e em arquivos abertos à consulta pública ou naqueles em que não seja necessário o emprego de Técnicas Operacionais. A coleta pode ser feita a partir de fontes, conforme visto anteriormente.

A busca configura-se como processo de obtenção de dados negados ao acesso público ou que estejam sob algum tipo de proteção, sendo necessário o uso de Técnicas Operacionais. Dois tipos de Operações de Inteligência são utilizadas na busca: as Sistemáticas e as Exploratórias. Ambas serão objeto de aprofundamento em módulos futuros.

A gestão das informações obtidas no processo de coleta e busca, com finalidade estratégica, pressupõe que estas atividades sejam adequadas e sistematicamente planejadas e realizadas. Implica, desta feita, a Inteligência, informação estratégica resultante, estar organizada a partir de métodos, meios e técnicas. Nesse sentido, é preciso ainda considerar que há fatores críticos na coleta e na busca, tais como prazos, recursos, riscos e personalidade do tomador de decisão. Tais fatores tanto podem contribuir para o sucesso ou insucesso da obtenção de informações.

Dentre as ações que destacamos como importantes para essa fase do Ciclo de Inteligência, citamos: ser um bom ouvinte; ser criativo; ser persistente; ser minucioso; conhecer bem as fontes; saber acessar bases de dados; lidar com propriedade com softwares de tratamento da informação.

A terceira fase do Ciclo é a análise dos dados e conhecimentos obtidos, que se configura como determinação, por discernimento mental, da natureza, do significado e da relação existente entre as várias partes, elementos, aspectos ou qualidades daquilo que está sendo examinado. Pressupõe a ponderação ou o estudo dos vários aspectos, fatores ou elementos sob análise a fim de chegar a uma conclusão, resultado ou solução.

Nessa fase, o analista de Inteligência consegue o desvelamento do significado final do conjunto de fatos e circunstâncias de interesse para a organização. Fatos e situações podem ter variados significados para os indivíduos e para as organizações, além de consequências, reflexos, repercussões e efeitos.

A quarta fase do Ciclo de Inteligência é a disseminação, também chamada de difusão; é a fase da disponibilização do conhecimento de Inteligência ao usuário demandante. Deve obedecer ao nível dos destinatários dentro da organização – estratégico, tático ou operacional – e deve levar em conta graus de sigilo e de segurança dos meios de difusão.

O princípio da oportunidade precisa ser sempre considerado na disseminação dos conhecimentos de Inteligência, tanto quanto o foi na produção. De nada vale produzir uma excelente informação, por exemplo, e ela chegar ao destino depois dos fatos acontecidos. Um sistema de protocolo – convencional ou eletrônico – é fator importante em um elemento de Inteligência, não devendo ser relegado a segundo plano ou entregue a pessoas despreparadas. O grupo responsável pela disseminação deve ter internalizado um senso de responsabilidades compartilhadas em relação ao sigilo das informações.

O início e o final do Ciclo da Inteligência são dois momentos críticos no relacionamento entre o produtor (analista) e o usuário da atividade de Inteligência. Sherman Kent, em seu livro Informações Estratégicas, até hoje considerado um manual básico para operadores de Inteligência, editado em 1948, já ressaltava essa característica, assinalando que:

Não há nada mais importante nas informações (Inteligência) do que as relações adequadas entre o seu pessoal e as pessoas que utilizam o produto de seu trabalho. Sem dúvida, o ideal seria que essas relações se estabelecessem automaticamente, todavia, isso não acontece. Elas são estabelecidas por meio de grande esforço consciente e persistente, e é provável que desapareçam se esse esforço for relaxado.

As relações adequadas entre os produtores e utilizadores de conhecimentos são sumamente delicadas. As informações (Inteligência) devem estar suficientemente próximas da política, do planejamento e das operações para obter o máximo de orientação, mas não tão próximas a ponto de perderem sua objetividade e integridade de julgamento.

Evidencia-se que Kent infere o papel de assessoramento da atividade de Inteligência e o coloca nos seus três níveis – estratégico (político), tático (planejamento), operacional (operações). O que se observa, desde sempre, poderíamos até afirmar, é que o estrategista, na maioria das vezes, não sabe definir as necessidades de informações do empreendimento e também não se contenta com os produtos que recebe. A maior queixa dos executivos de grandes organizações, atualmente, é a de que não recebem informações adequadas e oportunas para decisão. Em geral, esquecem-se de que não as pediram adequadamente ou sequer têm a visão apropriada da conjuntura e do empreendimento.

A Inteligência não é formuladora de objetivos para a organização (pode até auxiliar em sua identificação) nem tampouco traça as políticas a serem seguidas, não elabora os planos (a não ser os seus próprios) nem executa as ações de gestão estratégica correspondentes (a não ser aquelas que impliquem o escopo de seu trabalho – produzir informações úteis). A Inteligência é uma atividade de assessoramento ao planejamento, à decisão e às ações operacionais.

A missão da Inteligência é fazer com que os executores – nos três níveis mencionados – estejam bem informados, chamando a atenção para os fatos importantes – suas consequências, reflexos, repercussões e efeitos sobre a organização –, e, mediante solicitação, analisar linhas de ação em estudo sem indicar preferências, mas sim prós e contras destas.

A Inteligência não pode servir se não conhecer as intenções reais dos executores, não desfrutar de sua confiança e não tiver a orientação que todo profissional precisa ter de seu cliente para servi-lo adequadamente. Isso não significa, no entanto, dizer àquele que decide ou ao gestor “apenas o que ele gostaria de saber”. As boas notícias. Observar o “modelo mental” do condutor das estratégias organizacionais não é ser o arauto do apocalipse ou, muito menos, o alvissareiro demagogo.

Perante a verdade, nossa mente assume, necessários à consolidação do tipo de conhecimento a ser produzido, diferentes estados, ou seja, quatro graus distintos de assentimento mental a saber:

  1. Certeza: trata-se do acolhimento de forma integral, pela nossa mente, da imagem por ela mesma formada, como aquela correspondente ao objeto (fato ou situação) em análise. Quando se obtém a adesão total, dizemos que temos uma convicção. A evidência é a maior marca da verdade. Ex.: Isto é uma arma de fogo (apontando para uma).
  2. Opinião: trata-se do estado em que nossa mente acata, mas com reservas, a imagem por ela mesma formada, como sendo aquela correspondente ao objeto (fato ou situação) em análise. Quando se obtém adesão parcial, temos probabilidade. É, objetivamente, insuficiente. Ex.: Isto pode ser uma arma de fogo (quando não se conhece uma).
  3. Dúvida: trata-se do estado em que nossa mente, em situação de igualdade, tem razões para acatar ou recusar a imagem do fato ou da situação em análise. A incapacidade de aderir totalmente, nesse caso, conduz à possibilidade. A dúvida é objetiva e subjetivamente insuficiente para decisão. Ex.: Esta arma de fogo pode ser um revólver ou uma pistola.
  4. Ignorância: é o estado da mente caracterizado pela total ausência de qualquer imagem relativa ao fato ou à situação sob análise. Trata-se do DESCONHECIMENTO a respeito do objeto. Ex.: Eu desconheço armas de fogo (quando nunca se tenha identificado uma).

De acordo com o grau de credibilidade que se possa atribuir ao seu conteúdo, a partir dos estados mentais indicados, temos cinco tipos de Conhecimentos de Inteligência: dado; informe; informação; apreciação e estimativa. Trataremos desses conceitos de forma específica mais adiante.

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